De Abril a Novembro: o Chega e a guerra mnemónica pelo mito fundador da democracia portuguesa
- Programa:
- Sesión 7, Sesión 7
Día: viernes, 11 de septiembre de 2026
Hora: 09:00 a 10:45
Lugar: 13
Embora os indicadores atitudinais assinalem uma adesão maioritária e relativamente estável da população portuguesa ao 25 de Abril e aos seus legados, a consolidação simbólica da democracia portuguesa tem vindo a ser disputada pelo lado da oferta política. Este artigo analisa esse aparente paradoxo a partir dos discursos de André Ventura nas sessões solenes do 25 de Abril entre 2020 e 2026 e na primeira sessão solene autónoma do 25 de Novembro, em 2025. O objetivo é reconstituir a trajetória discursiva do Chega e discutir as suas implicações para os limites da oposição leal em democracia. O artigo argumenta que o discurso do Chega desloca-se de uma crítica imanente, segundo a qual Abril teria falhado as suas próprias promessas, para uma refundação mnemónica que relocaliza a origem da liberdade democrática no 25 de Novembro e, no limite, numa continuidade nacional plurissecular anterior à própria democracia. Sustenta-se que este repertório não é inventado pelo Chega, mas sim herdado de uma contramemória revisionista de direita. A novidade reside menos no conteúdo do que na sua forma de ativação, visto que a passagem de um pluralismo mnemónico para uma guerra mnemónica, encenada na profanação ritual do símbolo fundador e na sua crescente institucionalização parlamentar. Esta ativação opera como estratégia de polarização afetiva e de deslegitimação institucional. A partir da tipologia de Bernhard e Kubik, o artigo analisa o Chega como um ator mnemónico partidário que se aproxima do tipo "guerreiro mnemónico", visto que não apenas disputa interpretações do passado, mas também tende a deslocar e, no limite, a substituir a narrativa fundadora do regime democrático. Este enquadramento é articulado com a noção de religião civil, para captar a dimensão performativa das comemorações, e com a distinção de Juan Linz entre oposição leal e semileal, para avaliar as implicações normativas do caso. Metodologicamente, o artigo combina uma abordagem histórico-discursiva e uma análise de enquadramento, recorrendo a uma estratégia contrastiva intra-ritual. As intervenções do PSD e do CDS funcionam como pontos de comparação para aferir se e em que termos o discurso do Chega ultrapassa os limites convencionais da disputa memorial, considerando a permeabilidade recente dos partidos da centro-direita a este novo revisionismo histórico.
Palabras clave: Chega, 25 de Abril, 25 de Novembro, política da memória, direita radical populista, guerra mnemónica, democracia portuguesa